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sábado, 10 de outubro de 2009

FIGUEIRA DA FOZ ... POR VITORINO NEMÉSIO


"Vou no meu quarto ano de Figueira. Isto é um curso: no primeiro ano nem se conhecem condiscípulos, que são os outros banhistas. No segundo já há relações - não muitas, porque as disciplinas são absorventes e variadas: escolher banheiro, mercearia, farmácia para a pomada contra as queimaduras do sol e alguma tintura de iodo, conhecer as manhas da porta da casa alugada (uma ciência), etc. Até que, no terceiro, saudados logo à chegada pelo banheiro, pelo merceeiro, pelo rapaz do pão que nos dá o inútil bilhete de visita segurando o guiador da bicicleta, estamos quási formados (...)

Não me formei propriamente em Figueira da Foz (nome de Faculdade) mas em Palheiros, Universidade de Buarcos.(...) estudar o regime das nortadas, a psicologia das mulheres que vendem peixe e que nos saturam de sardinha, as laparotinhas que descem ao povoado com o cesto da fruta ou do feijão.

(...) O Dr. Oceano é na verdade a pessoa mais importante da Figueira. Emquanto gizo êste artigo êle muge atrás de mim. O crescente da lua estampa-se no céu. Abaixo uma esteira de luz, para cá, na areia, ondas que se desdobram como grupos de quatro atiradores deitados, que na carreira de tiro, à voz de 'fogo!' disparam ao alvo certo.

(...) No resto a Figueira é trivial e adorável como um híbrido de praia mundana e cidade de pequenos armadores. O turismo apregoa a parte confortável, recreativa e fresca do simpático produto, e tem para isso as razões especiais de todo o turismo moderno: boa esplanada, praia de aro imponente, casinos e cafés populosos, um delicioso ténnis instalado com muito gosto num forte abandonado das bombardas. Eu apego-me mais à Figueira de todo o ano, morta no Bairro Novo (...).

Não sei se êste interesse pela Figueira de inverno me veio de um romance de João Gaspar Simões, Amores Infelizes, em que a alma burguesa da cidade diz uma parte importante daquilo que tem a dizer."

por Vitorino Nemésio, in Diário de Lisboa - "A Banhos", 7 de Setembro de 1935.

via Álbum Figueirense.

J.M.M.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

GRUPO CARAS DIREITAS


“No dia 1 de Outubro de 1907, na casa de D. Leonor de Paula, a convite de António Augusto da Gama e Carlos da Cruz Oliveira reuniu-se um grupo de 15 amigos todos naturais e moradores em Buarcos, que fundaram então o ‘Grupo dos 15 Caras Direitas’, com a obrigação do pagamento de uma quota mensal de 100 réis, tendo a primeira direcção ficado assim constituída:

Presidente: Joaquim Marçal Carrega; Secretário: Carlos Cruz Oliveira; Tesoureiro: António Augusto da Gama. Os restantes 12 fundadores foram: Joaquim Rodrigues da Silva, António Caetano Ferreira, José Feteira, António Marques Murta, José Amorim Guerra, Augusto Alves Abreu, José Baptista Soares, António Gomes Pinto, Augusto Maria Henriques, José Cardoso de Oliveira, Alberto Cardoso de Oliveira e José Romão.

O Grupo tinha por finalidades praticar a "Instrução, Beneficência e Recreio", tendo sido aprazado comemorar, como data da sua fundação, o dia 1º de Dezembro por ser o aniversário da Independência de Portugal. A sua primeira sede foi numa pequena casa na rua Governador Soares Nogueira, cedida graciosamente pelo seu proprietário e director do Grupo, António Gama, seguindo-se uma outra na mesma rua, e depois no Teatro Duque, pelo aluguer do qual, pagavam 60$000 réis anuais.

Em 31-III-1913 é feita a fusão com o Sport Grupo Buarcosense, que tinha uma filarmónica, e como a sede entretanto se tornasse acanhada, três anos depois mudam-se para o Teatro Trindade, tendo passado a designar-se de Grupo Caras Direitas. Após muitos sacrifícios constroem a sua sede própria que é inaugurada em 6-V-1928, a qual dispõe de uma excelente sala de espectáculos com uma capacidade de 510 lugares onde se têm realizado sessões cinematográficas e teatrais, não só pela sua secção cénica como por consagradas companhias nacionais.

O seu palco que reúne as melhores condições técnicas, já foi pisado por artistas como Adelina e AuraAbranches, Alves da Cunha, lida e Dinah Stichini, Amélia Rey Colaço, Robles Monteiro, Berta de Bívar, Álvaro Benamor, Samuel Dinis, Camilo de Oliveira, José Viana, Mário Santos, Raul Solnado e outros, dando-se até a curiosidade de o popular actor Camilo de Oliveira ter nascido num dos seus camarins.

Ao longo da sua existência a secção cénica do Caras já representou centenas de peças de teatro desde dramas, comédias, farsas, operetas e revistas. Este género teatral tem predominado no Grupo, destacando-se entre as de maior sucesso: "Caldeirada à Pescador", "Nortada Rija", "Onda Marítima", "É Tudo Terra", "Em Águas de Bacalhau", "Um Mar t'Alimpe", "Sardinha na Brasa", "Gente do Mar" e "Cantarinha Vai à Fonte", que proporcionaram largas dezenas de representações, não só em Buarcos como em diversas terras dá país.

De notar que todas as revistas atrás referidas foram musicadas por José Traqueia Bracourt, sendo da autoria de Vasco da Gama e Jorge Bracourt. Se os êxitos alcançados pela secção cénica se devem aos méritos dos seus amadores, uma parte vai para os ensaiadores, que foram os seguintes: António Gomes Pinto, Manuel Monteiro, José Gaspar, Constantino Nunes da Silva, António Neves, José Goltz de Carvalho, Mário Santos, António Sousa, Manuel Pereira da Silva, João Alves Fernandes, Severo Biscaia, Eduardo Matos, Jorge Bracourt, José Fernandes dos Santos, Mário Bertô e Dr. António Gouveia de Carvalho.

Em Maio de 1931 e durante alguns anos funcionaram no Grupo aulas de instrução primária, desenho e ginástica. Nos dias 12 e 13 de Junho de 1938 realizou-se um arraial de Santo António, estreando-se um grupo de jazz privativo do Grupo e o "Rancho das Cantarinhas" (...). Da parte musical do rancho foi incumbido Alberto Machado e a coreográfica ficou a cargo de Joaquim Romão.

Em 1-XII-1982 foi inaugurado o Pavilhão Gimnodesportivo a cuja cerimónia presidiu o Ministro das Obras Públicas de então, Eng. Viana Baptista.(...) Em Dezembro de 2003 um incêndio destruiu o palco (entretanto recuperado)“.

in Monografia de Buarcos de Fausto Caniceiro, 2004 - via Album Figueirense.

J.M.M.